Arquivo da tag: Triste

O Alfabetismo

A distinção de “analfabetismo” e “analfabetismo funcional” é uma criação ridícula que visa apenas dar a falsa idéia de que o processo de alfabetização está sendo efetivado com sucesso no Brasil. Veja bem: o conceito de “analfabeto” implica que a pessoa não sabe ler nem escrever nada, enquanto o de “analfabeto funcional” define quem lê e escreve mas não entende. Ora, se ambos tipos de analfabetos não entendem o que lêem e o que escrevem, não serve de nada que os analfabetos funcionais leiam e escrevam, de modo que “analfabeto” ou “analfabeto funcional” são a mesma coisa. Não existem tipos diferentes de analfabeto, como o governo quer que a gente pense. É um despautério tentar empurrar isso na goela dos brasileiros. Na prática, significa que esses “analfabetos funcionais” só aprenderam a assinar o nome,  habilidade que eles vão usar em notas promissórias, notificações judiciais e carnês de lojas.

mafalda

No Brasil, 11,4% da população é analfabeta, segundo estatística oficial, o que é muito bonito, afinal, dá a idéia que 88,6% da população é alfabetizada. Contudo, 70% da população é formada por analfabetos funcionais.

Para que você tenha uma compreensão melhor do que é esse Grand Canyon educacional, proponho que começemos a divulgar esta estatística, mas por inversão. Se 70% são analfabetos, então apenas 30% são alfabetizados. Vamos colocar essa informação nas estatísticas oficiais, e isso deveria urgir os gestores a fazerem algo importante pela educação.

Uma solução mais brasileira (e particularmente bem machadiana) seria essa, que eu consigo imaginar nitidamente num discurso de político maranhense:  “Senhores, a regra é composta pela maioria, e a exceção pela minoria, de modo que se os analfabetos são a regra, os alfabetizados são a exceção; logo, os coitados que precisam de auxílio são os alfabetizados; a doença deles é o Alfabetismo. Precisamos fazer de tudo para torná-los analfabetos e trazê-los para a normalidade“.

A Fauna brasileira

O Emplastro Cubas orgulhosamente traz de presente aos nossos numerosos leitores uma mostra da incrível diversidade da fauna brasileira. Uma cortesia Ecosport: Bem vindo à vida.

raposa1

Gambá

seara-concordia-ita-0031

Urubu brasiliensis

gamba

Gambá


seara-concordia-ita-005

Gato

rato

Rato

seara-concordia-ita-009

Cobra Coral

seara-concordia-ita-010

Tatu

seara-concordia-ita-013

Azulão

m13

Tamanduá

Farra do boi, frigoríficos e churrascarias

A lei 9605 proíbe maus-tratos, abusos e mutilação dos animais.

Maltratando o boi até a morte, ou até ele se bandear para o mar, os farristas são acusados de covardes e criminosos.  Quanto aos rodeios a opinião é mais ou menos a mesma. Uma sociedade indignada contra a tortura dos animais.

Há quem defenda a farra do boi, por se tratar de uma tradição cultural.  Bem, uma desculpa instantânea, visto que quase tudo é, de certa maneira, cultural.

farristas

Agora, aquele indivíduo que é indiscutivelmente contra a farra do boi, se considera o amigo dos animais por  abominar rodeios e touradas… e todo fim de semana faz um churras (uhull) com a galera da facul… esse, e qualquer frequentador de churrascarias, estimula uma farra do boi que acontece todos os dias, porém longe de seus olhares , dentro dos frigoríficos.

vacas_abate11

ai meu bico

ai meu bico

Uma farra meticulosa onde até a eugenia, proposta pelo nosso governador luiz foca (leia aqui) é posta em prática.

Aí a RBS mostra uma cena com não sei quantos animais mortos pela enchente aqui em Santa Catarina. “Misericórdia!”, é o que eu escuto.

Engraçado,  ninguém sente misericórdia quando eles morrem para virar bife.

Bois geneticamente modificados pulam a etapa do abate e seguem direto para a casa do consumidor

Bois geneticamente modificados pulam a etapa do abate e seguem direto para a casa do consumidor

Bem, só por suposição, digamos que a lei devesse valer para todos.

Ela teria que punir os farristas… mas também os donos de frigoríficos, criadores de gado, de aves, comedores de carne, e por aí vai. Ou só matar animais na farra que é crime e matar para fazer presunto não é?

Os fins não justificam os meios. Errado ou não o farrista assume o que faz.

* Pra quem não tem um abatedouro ou frigorífico perto de casa, clique aqui e aqui.

PS: Os integrantes do emplastro são contra todas as farras do boi e de qualquer animal

O fim de Mafalda e da rebeldia

“Quino disse que não voltaria a desenhar Mafalda agora porque, segundo ele, os jovens de hoje estão desiludidos e não querem mudar o mundo para melhor, ao contrário da década de 1970, quando nasceu a personagem.

“No mundo, os problemas acontecem em espiral, nunca da mesma forma. A época em que eu fazia Mafalda não se repete, toda a juventude tinha ideais políticos para começar, e achávamos, com os Beatles, o Che Guevara, o papa e o maio francês de 68, que o mundo estava mudando para melhor”, completou o argentino.”

(texto Folha de S.P.)

Uma pena que Mafalda chegue ao fim definitivo, mas teria que acontecer, eventualmente, de qualquer forma. Era uma tirinha muito contundente e divertida, que marcou minha infância. Quando Quino menciona que os jovens de hoje “não querem mudar o mundo para melhor“, não tiro a razão dele, pelo menos em parte – é claro que também existe um pouco de idealização e saudosismo no discurso de Quino. Mas o que vemos no jovem de hoje, em geral?

Eu vejo muita preocupação em se adequar aos padrões de uma repressão velada em forma de suposta liberdade. Um capeta em forma de guri. Veja, por exemplo, o rap e o hip hop. Perceba, leitor, aqui a qualidade musical ou sua ausência é irrelevante. Trata-se de passar uma idéia, e nisso esses gêneros dialogavam com os jovens da periferia como outros não conseguiram. É um tipo de música que já fez sentido em um determinado período, para levar àquele público uma mensagem de crítica social, no sentido de fazer com que os eles buscassem seu espaço no mundo. “Vamos contestar isso que está aí”, dizia o hip hop.

Entretanto, em algum ponto no caminho, esses gêneros foram abraçados pela mídia, que, subvertendo a mensagem original desses gêneros, reduziu-os a uma mera busca pela satisfação sexual e por bizarras jóias gigantes que parecem de comédia pastelão. A crítica social sumiu desses gêneros musicais. Agora o que importa é busanfa e bufunfa, e o jovem, ansioso em mostrar sua pretensa liberação, sai pelo mundo atrás de bitches and money, achando que está contra o establishment, quando na verdade está fazendo tudo que o sistema quer que ele faça.

Esse rapper lifestyle é tudo que uma sociedade capitalista quer: pessoas sem educação, acríticas, gastando mais do que podem, mantendo-se, sozinhas, subjulgadas, sem que o sistema faça nenhum tipo de esforço para isso. Elas ficam presas nesse looping por escolha própria, como um abatedouro que os bois frequentam por vontade própria.

A docilização progressiva da juventude está em pleno curso, e esse exemplo do hip hop é apenas um. Existem outras táticas diversionistas que o sistema aplica, com variados graus de sucesso e em todos os fronts, no sentido da docilização, de uma microfísica do poder. Existem hoje o metrossexualismo, o consumismo, a moda, o tuning de carros, só para citar alguns. Não vivi na década de 1970, mas acho difícil que esses fatores existissem com a frequência e intensidade que existem hoje. Tampouco os meios de comunicação tinham a penetração que têm hoje.

Evidentemente, não idealizo uma juventude excessivamente reacionária, disposta a pegar em armas por qualquer espirro. O meu ponto, ao escrever essas linhas, reside somente em ter jovens preparados na luta contra injustiças, para que, quando afrontados com algum fator, seja de ordem política, econômica ou social, tenham poder de reação e união frente à adversidade. Qualquer reação teria que vir necessariamente da juventude, pois as demais faixas etárias são incapazes de reagir consistentemente, seja por sectarismo, acomodação ou pura incapacidade física. Eles precisam ser capazes de garantir seu próprio futuro, e não esperar que lhes seja dado de presente por alguma entidade superior. Proponho pararmos de criar ovelhas e começarmos a criar pastores.

A juventude parece disposta a comprometer o futuro.