Os debates são essenciais para vencer uma campanha eleitoral, pelo menos em lugares que as pessoas os têm por inteligíveis. Eles têm o poder de virar uma eleição, ou de confirmar um favorito. O candidato que deseja vencer um debate deve utilizar essas técnicas ad nauseam:
1 – The Poker Face – Manter uma poker face é essencial. O candidato não pode parecer arrogante, falso, nem pode se mostrar ansioso quando blefa ou quando sabe algum podre do adversário. Tem que manter uma cara neutra, e sorrir quando falar de coisas positivas. Resumidamente, tem que ser um ator. Na falta de palavras precisas, os gestos podem complementar a expressões faciais.
“Boy, these pretzels are making me thirsty”
2 – Dizer sempre a verdade (a sua) – O candidato deve se supor como o portador único da verdade, que deve estar invariavelmente com ele. Sempre que for acusado, seja por ataques do adversário, estatísticas ou mesmo fatos comprovados, ele deve ignorar toda a acusação, mantendo-se completamente crente em sua verdade. Como diria o grande pensador Costanza, “não é uma mentira se você acredita nela”. Lembra aquele dia que você estava distraído na rua e uma crente agarrou tua mão pra tentar te converter? Lembra aquela fé inabalável dela, em Deus e na coisa toda? Adiantou tu falar que a religião é instrumento de dominação e que a Bíblia é apócrifa? Não, porque foram os crentes que inventaram essa técnica. A verdade pertence a eles! É assim que o candidato deve se portar. Se Deus existe, existe e tá acabado, e quem falar que não está mentindo. Para dar um toque de efeito no final é importante frisar ao adversário que mentir é feio, bem como lembrá-lo sobre as consequências legais a quem o faz.
“I swear by god almighty!”
3 – Se ofender profundamente quando atacado – Também é importante aparentar estar ofendido com as acusações do adversário para colocar o público do seu lado. Assim a audiência fica bravo com quem ataca, mesmo que o atacado seja um pilantra.
“Papai! Javier!”
4 – O Sujeito Indeterminado – Deve ser utilizado sempre que possível, pois essa característica indeterminada lhe garante isenção de responsabilidade. Como responsabilizar alguém que você não sabe quem é?
Exemplificarei as técnicas ensinadas até aqui. O candidato A é orientado por mim:
A- “No meu governo asfaltei a Rua do Imperador e fiz mais de 23.434 obras.” (técnica 2)
B – “Mentira, esse asfalto já existia há 30 anos!”
A – (cara de ofendido (1)) “Não me chame de mentiroso! Não baixe o nível do debate, hein! (3) Eu não só asfaltei como melhorei o saneamento básico. Foi falado (4) que todo mundo gostou. Há os (4) que dizem que foi a melhor obra pra cidade! Olha, devo alertar o meu oponente que mentir é feio e que o senhor será devidamente processado por mentir para o povo!“ (2)
Deste modo, mesmo sendo B correto em sua afirmação, a razão das pessoas tenderá fortemente a apoiar o candidato A, que, na visão do espectador, além de ter feito as ditas obras, foi atacado covardemente num debate que o adversário abaixou o nível. Passemos às próximas técnicas:
“The Who?”
5 – As Estatísticas – Citar estatísticas é excelente, porque além do povo não saber matemática e por isso não se sentir capacitado a duvidar, elas podem vir de qualquer lugar. O candidato deve colocar categoricamente que a estatística foi feita por “especialistas” – pronto, assim mesmo, não precisa citar nomes nem o instituto aos quais tais especialistas estariam supostamente vinculados. Basta dizer que são “especialistas” para adquirirem uma credibilidade instantânea. Normalmente, as estatísticas precisam de números, pelo menos na Matemática. Mas eleição não é Matemática, é Política, então as estatísticas podem se referir a coisas incontáveis, como amor, educação e felicidade.
“Qualidade do blog a partir da entrada de Diego”
6 – Pagar pau fortement pro eleitor – auto-explicativo.
“Isso é fisicamente impossível, Arnaldo. A Física não permite.”
7 – Citar prêmios obscuros – Os prêmios podem ser tão obscuros que ninguém consegue encontrar a instituição que os confere, logo, é impossível verificar sua credibilidade, ou mesmo existência, o que automaticamente os torna válidos. É o argumentum ad ignorantiam por definição, ou seja, o argumento é verdadeiro apenas por não ter sido provado falso. Exemplo das técnicas de 5 a 7:
A – “No meu governo foi feita uma pesquisa por especialistas (5) que afirmaram que a saúde melhorou 230% (5) e as pessoas estão 70% mais felizes (5). Ganhamos um carlosdiego de ouro (7) em gestão da revista assduheaha.” (fala meio resmungando pra ninguém entender enquanto coça o nariz).
B – “Mas o município está falido! Estamos devendo 300 milhões!”
A – “O meu oponente está mais preocupado com dinheiro que com a felicidade das pessoas. Eu me preocupo com você, eleitor. Se tiver que gastar dinheiro para deixar as pessoas mais felizes, eu o farei, porque meu compromisso é com o eleitor, e não com o dinheiro – ao contrário do meu oponente, aliás!“(6)
“Após 4 anos sem sequer chegar às finais, o Tarso de Madeira do Festival de Marcenaria de Valinhos volta à Casa Branca.”
A razão e a verdade são facilmente subvertidas num debate. A linha geral pela qual o debatedor ideal deve se orientar é a da relativização de coisas que seriam verdades absolutas. O importante é não hesitar e demonstrar uma profunda convicção, que vem urgindo dentro dele desde que era pequenino e já sonhava em tornar melhor a vida das pessoas. Aliás, foi pra isso que ele entrou na política.
8 – Desacreditar o adversário – Agora começam as técnicas que visam inverter uma situação adversa. Quando se está perdendo, e feio, são a estas que se deve apelar – ou seja, quando não se resta nada a perder. Sim, é chegada a hora de abrir o saco que vai pra lavanderia. Deve se dizer que o adversário é despreparado, homossexual, egoísta, rico, filhinho de papai, insinuar um leve retardamento mental, ébrio costumaz, pródigo, etc. Procurar associar a imagem do adversário à de Hitler, Stalin ou Chávez. Se possível, dos três. Dizer que ele apoiou a Ditadura Militar, mesmo que ele tenha nascido após 1985. E, claro, o grand finale – nada diminui mais um candidato do que ter curso superior. Afinal, se a pessoa estudou, ela só pode ser da elite branca, e, possivelmente, tem cérebro, o que não é desejado. O eleitor não quer cérebro – ele quer coração. Pode-se dizer até que o adversário tem pós-graduação, mas, obviamente, aí até eu acho que é um recurso apelativo. Não precisamos descer até aqui, não é mesmo?
Quanto ao nosso candidato, nosso bom moço, deve-se destacar sua origem humilde e proletária, mesmo que ele venha da classe média-alta. Recomenda-se, além de desacreditar o adversário, mostrar o quanto nosso candidato é melhor, numa clara relação de contraste, senão as pessoas não entenderão. Observe:
A – “O meu oponente nasceu rico (8). Já tem muito dinheiro e quer a política pra lucrar ainda mais! Foi pra faculdade (8) pra aprender a roubar… é um fascista, apoiou a ditadura (8)! E convenhamos… além de melhor preparado eu sou muito mais bonito! (8) Eu tive que lutar pra chegar onde cheguei! “
Percebem o contraste? o lado down e o lado up? o preto e o branco do texto? O acorde menor, interrompido no intermezzo pelo maior? Eu poderia ensinar vocês a escrever assim, mas não é algo que possa ser aprendido. Tem que nascer com o dom mesmo. Agora favor parar o cocoricó pois ainda não tocou o sinal pra merenda – o milho vem depois. Ficar putinho não ajuda vocês em nada. Prossigamos:
9 – The Bullshit Technique – Quando o oponente terminar uma frase, adotar uma atitude que expresse “ele tá falando m*”. Exemplo:
B – “…e assim, senhores, que pretendo governar!”
Ao que nosso candidato responde (qualquer opção abaixo, alternadamente):
A – “PUFF!!!”
A – “Mediador, chame alguém pra limpar o monte de m* que ele fez!”
A – (Em silêncio, coloca o indicador na boca e faz que vomita).
A – “Porque não fez antes, quando vossa excelência era síndico?”
A – “Você está defecando pela boca!”
A – “Você está desesperado. Não precisa ficar nervoso.“
A – (Faz uma mãozinha falante e diz com ela: “bla bla bla bla!“)
A – “Até que enfim… até que enfim…”, e continua cantando a música.
A – (Aponta para o oponente e começa a rir).
A – (Em silêncio, prende o nariz entre o polegar e o indicador. Com a mão oposta, abana).
“Desde o agora notório incidente do pittbull macho confundido com fêmea, Spike resolveu não correr mais riscos”.







