Em minha opinião as melhores obras de Vincent Van Gogh são as noturnas, executadas no período final de sua vida, quando já residia em Arles, na Provence. É durante a noite que o brilho das luzes artificiais e das estrelas se tornam visíveis, ao fugir do monopólio do sol. Para o holandês, a noite era até mesmo mais colorida que o dia. Mas nem sempre foi assim. Van Gogh chegou a ter uma fase influenciada essencialmente pelo amarelo do sol mediterrâneo, também em Arles. Somente depois passou a se interessar pela noite. Ele não era tão técnico quanto Monet, Velásquez ou Delacroix. Também não tinha a fineza aguda de Dali. Van Gogh tinha um pincel mais pesado que os grandes mestres, e suas pinturas são, frequentemente, de uma ingenuidade incrível, quase infantil – de acordo com o pós-impressionismo, escola iniciada por ele mesmo. Desprezava a reprodução fotográfica, acreditando que o artista tinha que imprimir sua própria visão à pintura. Van Gogh foi a semente do expressionismo. Colocarei aqui as minhas telas noturnas favoritas do Vincent:
Aqui são visíveis alguns erros de perspectiva – veja a falta de alinhamento dos pés da mesa de bilhar, e da junção das paredes no fundo do café. Posando ao lado da mesa de bilhar está o proprietário do café, e, nas mesas, alguns bêbados, para trazer a idéia de boteco. Van Gogh explica em uma carta a seu irmão Theo como funciona o café:
Pra satisfazer ao anseio nacional por clichês, decidi colocar esta na lista, embora admita que é bem bacana também e não deva nada a outras do mesmo período. Aqui Van Gogh pinta a noite sobre St. Rémy, da perspectiva da janela do quarto em que estava hospedado no sanatório local. Sim, o nosso Vincent já estava falando sozinho e atacando neuroticamente as pessoas na rua nessa época.
Esse é o meu favorito. Absolutamente genial. O céu iluminado pela Ursa Maior parece feito de tijolos de tinta azul, e as luzes da cidade de Arles são refletidas no Rhône. Em primeiro plano, um casal idoso, provavelmente bisbilhotando, como ocorre frequentemente nessa faixa etária. Não era pra menos, o pobre Vicent já devia estar com fama de pirado na cidadezinha de Arles. Ridiculamente incríveis as cores do céu e da água. Vincent imprimiu um idealismo incrível em uma cena meramente casual. Que sonhador era esse cara. Que idealismo. Quanta poesia existe aí? Como ele fazia pra ver tanta beleza num mundo tão ordinário? Ele se mataria dois anos depois, aos 37 anos – talvez por causa da distância enorme entre esse mundo que sonhou e pintou e o mundo real.
