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O prefeito Graciliano Ramos

Houve tempo em que o escritor Graciliano Ramos assumiu, por dois mandatos, o cargo de prefeito de Palmeira dos Índios, cidade no interior de Alagoas. Nessa época escreveu ao governador do estado de Alagos algumas prestações de contas da prefeitura local, que contém insights interessantes. O meu favorito é sobre o cemitério local:

“No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação”

Lendo as prestações de contas, é possível ver o estado em que se encontravam as coisas nessa pequena cidade do interior nordestino, e considerando o ano em que foram escritas – 1929 e 1930 -, o leitor contemporâneo talvez concluirá que a administração pública municipal brasileira não evoluiu muito.

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Seguem alguns trechos interessantes:

“Os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas (…) Fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos públicos”.

“Não há vereda no interior aberta pelos matutos , forçados pelos inspetores, que a prefeitura não ponha no arame (telegrama), proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do estado, que não precisa disso; todos acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que iso por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos Caetés”.

Sobre a iluminação pública:

“A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá”.

O grande Fracasso

As duas únicas características distintivas concernentes ao protagonista desta história, Mohammed Fracasso, eram uma profunda aversão ao trabalho e sua altura excessiva, totalmente desproporcional, que Joyce não tentaria colocar no papel – muito menos eu.

Descendente de italianos, ainda adolescente foi recrutado para as fileiras do Jihad. Seus amigos terroristas o chamavam por seu nome de guerra, Fracasso, já que quando o chamavam pelo primeiro nome quinhentos homens olhavam. Seu pai havia sido homem-bala num circo italiano, e não se sabe por quê tornou-se ativista árabe fervoroso.

Por não ter apego a qualquer coisa desse mundo, o psicotécnico de Fracasso acabou enquadrando-o na função de homem-bomba.

O fato é que Fracasso permanecia no Jihad somente porque odiava trabalhar, e, não tendo nenhuma aptidão, acabou ficando na organização. Era um membro sem convicção, e apenas o era para evitar perguntas indesejáveis sobre estar desempregado por parte de sua família, e assim a coisa funcionava bem para todos.

Frequentemente dormia nas reuniões, nunca participando das dinâmicas de grupo com os psicólogos da Jihad. Era um outsider dentro da organização, mas isso não impedia que mantivesse boas relações com outros membros.

Numa das chatíssimas Reuniões de Quinta-Feira a Noite da Jihad, seu cochilo foi interrompido pelo que lhe parecia ser a voz do líder chamando seu nome. Acordou bruscamente e limpou um pouco de saliva que ameaçava escapar pelo canto direito da boca. Percebeu que não fora pego em flagrante dormindo, e essa constatação o tranquilizou. Agora, totalmente acordado, prestou atenção no líder como se este estivesse ensinando como convencer moças israelenses a dormir com árabes.

Foi preciso que o líder acabase seu pronunciamento para que Fracasso compreendesse tudo: fora convocado para explodir uma sinagoga.

No final da reunião, alguns colegas vieram cumprimentá-lo, desejando-lhe boa sorte no atentado que aconteceria na semana seguinte. Os mais caras-de-pau perguntaram-no com quem ficaria sua esposa quando Fracasso partisse desse mundo. Pensando na esposa, Fracasso percebeu que ela era um grande incentivo para que ele cometesse o atentado, embora ela não soubesse disso – era insuportável, a infeliz.

No caminho de volta para casa, a perspectiva da morte se abateu sobre nosso herói. Seu coração fraquejou. Não odiava ninguém e morreria por uma causa que não acreditava.

Passou o fim de semana pensando nos detalhes do atentado que cometeria, onde, independentemente de sucesso, acabaria morto. Pior, era capaz até que não levasse ninguém junto com ele. Isso desgraçaria o nome da sua família.

Bolou uma estratégia que o livraria do funeral, mas que poderia ter consequências ainda piores que a própria morte.

No dia programado para o atentado, ligou para a Jihad e informou que não poderia cometê-lo, pois estava doente. Tinha até atestado médico para comprovar. Ele sabia das implicações que isso haveria de causar em última instância, e que acabaram tomando lugar nos dias subsequentes.

O desfecho foi previsível: seus colegas ficaram indignados com a falta de fé de Fracasso, que foi excomungado do grupo. A família de Fracasso descobriu sua covardice, e como ele tinha mais medo do pai que da Jihad, acabou tendo que arranjar um emprego burocrático, 5 dias por semana, 8 horas por dia.

Até hoje Fracasso enfrenta com pesar as consequências de ter refugado diante do atentado. Há dias em que jura ter preferido levar adiante o ataque, especialmente naqueles que seu chefe faz chacota da sua altura desengonçada, ou nos que sua esposa pede para que tire os sapatos ao entrar em casa.

A Fantástica História do País B. – parte II

###Então encontraram o caminho, ratazanas do mar?###

*Segunda parte da crônica “A Fantástica História do País B.”*


O pirata contava meu dinheiro enquanto cofiava o bigode. Continuou, dramático:

“Com o passar dos anos, o povo de B. desenvolveu leis e moral novas, baseadas nas profecias de um andarilho que não conseguira sair a tempo do país. Enquanto o andarilho achava que era Napoleão estava tudo bem, mas depois ele achou que era Metternich, e acabou por se matar a socos. Os habitantes de B. acharam que era um simbolismo para a luta interna do Homem e lhe construíram uma estátua.”

“Seguindo a profecia do andarilho, os bandidos que estavavam na cadeia foram liberados para ocupar cargos eletivos e comissionados. Ao maior deles, deram o cargo de corregedor. As pessoas mais vazias e que não tinham o que acrescentar foram colocadas na rádio, que tocava a mesma música em repeat o dia inteiro. Com a ida dos idiotas para a TV, esta passava futebol a maior parte do tempo, imagine? Não que eu seja perna de pau, mas tenha paciência!”, ria e tossia o pirata. Ele gesticulava muito enquanto falava, o que não seria perigoso se não estivesse segurando sua espada, de modo que de quando em quando eu tinha que me abaixar.

“Os inteligentes, tachados de loucos, foram abrigados em hospícios; Os com o pior senso estético viraram artistas de toda sorte; Aos piromaníacos foram delegados os bombeiros, enquanto aos cleptomaníacos, a segurança pública; foi criado o Esquadrão da Moda, espécie de polícia paralela que prendia os que se vestissem em desacordo com o esperado. Os mendazes foram pro jornalismo; Os ladrões de terra para imobiliárias e planejamento urbano. Os injustos tornaram-se legisladores. Os alcóolatras e outros com capacidade de discernimento alterada foram para cargos de direção. Até os padres inverteram suas atribuições e foram fazer o bem!

O pirata foi interrompido pelo seu papagaio, que, neurótico, começou a xingar os padres. Prosseguiu, depois de pedir desculpas pelo pássaro, que, explicou, não gostava de padres, mas não dizia por quê:

“Os indicadores sociais começaram a se deteriorar, e chegou o dia em que até as canetas que ficam nos balcões das lojas tiveram que ser atadas com cordinhas para que ninguém as roubasse. Imagine isso, dizia o pirata indignado, você ter que fazer a segurança de suas próprias canetas! Imagine como os coitados estavam desesperados, santo cão!”, praguejou.

“Um dia, uma criança jogou no rio do país B. uma mensagem numa garrafa, que, não sei como, foi encontrada aqui, no mundo exterior. Se lembraram do país e foram em socorro de seus habitantes, e lá chegando, encontraram-os miseráveis.

Parece que estavam matando pra roubar relógio. Brigavam até por time de futebol. Havia partes das cidades em que a própria polícia não podia entrar, por causa de gangues. A maioria estava morando em barracos, com as crianças brincando em cima do esgoto. Quem tinha carro podia tudo, até passar por cima dos outros. Tinha bicho de estimação que tinha mais coisa que gente. Os comerciantes perguntavam aos clientes se estes iam querer levar a nota fiscal.

Apesar da injustiça e da opressão, eram sempre os mesmos no comando, um navio sem motim. Esses do comando dominavam estados inteiros, e haviam estabelecido uma espécie de monarquia, pois seus poderes políticos eram repassados aos filhos. Frequentemente encontravam-se pela cidade o sobrenome da mesma família em todos prédios públicos. No final chegaram ao fundo do poço: como não conheciam outra forma de viver, achavam tudo natural. Diziam eles que se eles viviam assim, era essa a melhor forma de viver. O curioso é que, depois de reencontrar o resto do mundo, não sei como os habitantes de B. sentiram muita pena da situação de Timor Leste!”

Agora o pirata, sensibilizado, tinha um olhar distante no rosto. Avistei uma lágrima fugindo por baixo do tapa olho. O imediato de seu navio veio chamá-lo: parece que havia saído de Cartagena um galeão espanhol com ouro. O pirata levantou-se e despediu-se rapidamente. Deixou a conta para mim sem eu ter pedido. Falou que se eu contasse essa história para alguém, faria-me andar na prancha. Como seu só contei para você, estou tranquilo. Se você mantiver segredo também, ficarei bem, afinal, esse tipo de coisa sempre funciona. Pelo menos ficarei melhor que o pobre povo de B.

A Fantástica História do País B. – parte I

A história que escreverei agora me foi contada por um pirata fedendo a rum em uma ilha qualquer das Antilhas, acho que São Tomé, num bar repleto de marinheiros dos sete mares. Tentando recordar agora, talvez o fedor de rum fosse meu, mas tampouco lembro-me disso, o que reforça minhas suspeitas nesse sentido. O fato é que o trigueiro pirata sabia das coisas, e depois de ter me deixado liso no carteado com um baralho marcado, me contou a tal história sob a condição de lhe pagar 2 dobrões, ao que concordei de bom grado, afinal, sou um velho lobo do mar – farejo um golpe de longe, e sabia que esse não era o caso. Mas já alerto ao leitor: é uma história daquelas tão fantásticas que só podem ser verdadeiras.

O país B. sempre foi muito isolado…“, começou o pirata, e já nas primeiras palavras percebi um misto de intensidade e cebola. “… Distante até de seus vizinhos de fronteira, sempre foi contramão para quem quisesse ir a qualquer lugar. Não produzia grande coisa, nem exportava nada, de modo que era pouco lembrado pelas pessoas do continente e esquecido por Deus…”, e olhou para cima, procurando-o. Nesse momento lembro de ter pensado “puxa vida, que marujo dramático esse”, mas, vivendo como vivi a vida toda no mar, sei que são tipos que gostam de fazer jus ao estereótipo que carregam.

Foi na Grande Tempestade, no ano do Senhor de 1985, que um deslizamento de terra interrompeu a estrada B.-267, única via de saída do país B. para seus vizinhos. “Aliás“, acrescenteu o pirata tossindo após um trago, “Mesmo quando estava aberta, a B.-267 não servia como via de entrada, já que ninguém tinha nada para fazer lá”, e gargalhou alto, atraindo a atenção de todos no bar, mostrando seus dentes podres. Deduzi que era inglês.

“O povo de B. se viu isolado do mundo. Devido ao estado anterior das coisas, foi uma transição suave. Nos primeiros meses, aguardaram ansiosos por socorro externo. A medida que perceberam que não seriam salvos, retomaram lentamente o ritmo de suas vidas, esperando que esse esquecimento que só podia ser por engano se desfizesse logo.”

“Simultaneamente, no mundo exterior, os geógrafos, ao atualizarem seus mapas enquanto assistiam televisão, esqueceram de colocar esse distante país no novo mapa mundi, o que sepultou de vez a sorte dos habitantes de B. O mundo externo esqueceu-se de B. com a facilidade que um pirata ébrio em terra nova esquece a esposa na terra natal!”, contou batendo a mão na mesa, rindo como se não houvesse amanhã.

Nesse momento, suspeito que o pirata percebeu meu interesse pela história, pois demandou-me mais 2 dobrões para continuá-la. Como estava curioso, paguei de pronto, e, com meus últimos tostões mandei o grumete trazer mais uma garrafa de rum. Sendo o velho lobo do mar que sou, sei que nada azeita um pirata como rum da Jamaica. O pirata aproveitou a pausa para tirar com o palito algo que estava preso em seu dente de ouro. Era um peixe.

***

###Como o Emplastro tem que pagar suas despesas, e eu preciso reaver o dinheiro perdido junto ao pirata, só daremos o final da história com o pagamento de uma doação. Se quiser saber o que aconteceu comigo, com o bravo pirata ou com o povo de B., lhes darei o mapa do tesouro: o final da história está a 5 dias de navegação a sotavento, nesta mesma ilha.###

O Matemático

Francisco era uma espécie de gênio matemático. Filho de um engenheiro e uma contadora, no primeiro aniversário ganhou um cubo de Rubik, e no segundo, um ábaco. No quinto já dominava a calculadora científica de seu pai, e para passar o tempo resolvia problemas de xadrez, numa idade em que as crianças mal conseguem elaborar frases simples. Seus pais logo perceberam a prodigiosa aptidão do filho pela matemática, mas foi quando ele enviou uma carta ao Dr. Stevens, do MIT, fazendo algumas retificações em sua tese de doutorado, que eles desconfiaram que havia algo muito errado com a criança, digo, algo errado apenas, pois eles não gostavam de usar a palavra “muito” – é uma incerteza matemática.

Fez da previsibilidade sua vida, não precisando nunca entrar na margem de erro. Escolheu sua universidade alguns anos depois, quando já era um senhor de 12 anos. Preferiu a computação, uma escolha meio sem graça, já que os computadores trabalham só com zeros e uns. Uma mente dessas para ordenar zeros e uns era um crime, disse a mãe reprovadora, acrescentando que seria como colocar Shakespeare para aprender português. O menino não entendeu, pois desse autor ele só conhecia O Rei Leão. Sua área era outra. Respondeu com uma pergunta: não era Shakespeare inglês?, ao que a mãe retrucou, furiosa, que podia contar nos dedos quantos desses jovens metidos com computadores eram felizes.

Chegou a gerente do sistema operacional da Bolsa de Valores; o salário era bom, mas ele nutria um medo descomunal dos números do pregão: eram imprevisíveis. Todo dia investidores ganhavam e perdiam milhões na bolsa, o que ele considerava um investimento seguro como as corridas de cavalos.

Manteve sua rotina e fazia tudo nos mesmos horários, como Kant em Konigsberg. Sua vida de repente parecia uma dízima periódica, e, entediado, começou a pensar em ganhar dinheiro, só pela diversão, mas não como esses investidores, que lhe pareciam jogadores viciados. Um dia, enquanto assistia a bela dança dos números no painel eletrônico, lembrou-se de um truque matemático que descobrira quando pequeno, que era assim: (1) dividido por (3) é (0,333); no entanto, ao fazer a prova real, multiplicando (3) por (0,333), o resultado é (0,999), ao invés de (1), como se poderia supor. O truque fazia desaparecer (0,001) da quantia original. Ah, como era cheio de mistérios o belo sistema decimal!… Foi dormir pensando nisso. No dia seguinte, estava tudo planejado.

Inseriu no código-fonte do software da Bolsa de Valores uma linha maliciosa que operava da seguinte forma: todas as transações financeiras com quantias terminadas em (,01) passavam pela linha, onde eram divididas por 3 e em seguida, multiplicadas por este mesmo número. Essa equação, seguindo a lógica do velho truque de infância, sumia com uma pequena parte dos centavos, e a colocava automaticamente em contas secretas em Guernsey. Em termos absolutos, a diferença não era notada, pois eram partes de centavos, mas, no decorrer de milhares de transações mensais, somavam muito dinheiro. Isso não foi percebido por mais de um ano, até que, desconfiados de seu enriquecimento repentino, a polícia investigou-o. A declaração de Imposto de Renda e seu patrimônio não batiam na prova dos nove. Ele argumentou que tinha esquecido de levar alguns rendimentos em conta, e que a polícia estava vendo números imaginários. Esta sabia da grande reputação de Francisco, e percebeu que este não poderia ser o caso.

Descoberta a linha maliciosa, foi em cana por subtrair o bolso alheio. Sentiu-se uma fração do homem que era quando o juiz lhe disse que estava com os dias contados.

A Camareira Clara

A primeira coisa que a Camareira Clara viu ao acordar foi a expressão de terror estampada na cara da recepcionista do laboratório.

- “O que aconteceu?”, perguntou a Camareira Clara, ainda tonta.

- “A senhora desmaiou. Está tudo bem? Está tudo bem?”, repetiu a recepcionista assustada, pois era daquelas que pensam que uma pergunta repetida tem a incisão de duas.

A Camareira Clara aquiesceu devagar, como quem consulta a si mesmo para saber se está tudo bem. Nada tendo surgido em sua cabeça, como ocorria com alguma frequência, deduziu que estava tudo bem, e assim o fez saber à recepcionista. Esta parecia mais instrutora de para-quedismo que recepcionista , porque gostava de fazer as coisas com muita segurança, pois perguntou pela terceira vez “está tudo bem”?

Se desta vez a Camareira Clara não escutou ou apenas ignorou não sabemos. Pode ser que ainda estivesse se recuperando do desmaio, e ela notoriamente demorava a engrenar sua cabeça nessas ocasiões. Havia até dias que ela ia dormir sem ter acordado totalmente. Andava sempre meio sonambula. Não era uma pessoa matutina, certamente; um psicólogo disse que ela tampouco era pessoa noctívaga; um hóspede do hotel, quando da subtração de sua carteira durante o turno da Camareira Clara disse que ela não era pessoa alguma. Não há tempo para existencialismo aqui. Basta-nos saber que não era a mais brilhante das camareiras – embora fosse a mais sonolenta. Talvez ela simplesmente não se interessasse o bastante pela parte da vida que passamos acordados. Curioso notar que os outros funcionários do hotel, quando a pegavam dormindo em horário de serviço, o atribuíam à narcolepsia. Coincidentemente, ela era sempre encontrada narcoléptica na cama dos quartos que deveria arrumar, e nunca no banheiro ou nos corredores, como poderia se supor, mas a doença dos outros funcionários era outra: a miopia.

A recepcionista insistiu em chamar um taxi para levá-la para casa. Telefonou para a rádio-taxi e juntou os exames da Camareira Clara que tinham caído no chão. Ligou mais uma vez para confirmar: o taxi realmente vinha. A Camareira Clara entrou no taxi sob a vigilância atenta da preocupada recepcionista, que analisava a conformidade do procedimento.

No caminho para casa, a Camareira Clara pensava consigo, enquanto olhava o resultado dos exames: “Grávida…”. Não era possível. Como isso poderia ter acontecido? Valdecir estava morto já fazia 5 anos, e desde então ela não havia estado com nenhum homem. Lembrou de Valdecir com carinho e suspirou. Aquele sim era homem. Como então poderia a Camareira Clara estar grávida?

***

A Camareira Clara procurou a Polícia, que abriu inquérito para apurar como teria acontecido a concepção do bebê. O caso tornou-se notório da noite para o dia. A Camareira Clara apareceu em programa de TV e deu entrevista para a rádio. A Igreja atribuiu a paternidade ao Espírito Santo, e os ateus, ao padre. Foi na Oprah discutir sobre os misteriosos caminhos da vida com ares de conhecimento de causa.

***

O exame de DNA ficou pronto semanas depois, e revelou o nome do pai biológico. O cético delegado, não acreditando em milagres, cruzou as informações contidas no livro de hóspedes do Hotel e o resultado do DNA e encontrou na intersecção o nome do pai biológico. Este jurou de pés juntos sequer conhecer a Camareira Clara, embora tenha admitido estar no Hotel com outra mulher na data da concepção.

Várias pessoas ficaram revoltadas com a suposta mentira da Camareira Clara, outras com o fato do pai não ter sido Deus – embora algumas tenham mantido firmemente essa convicção. O Vaticano aguardava esclarecimentos para poder canonizar a Camareira Clara. Para acalmar os ânimos, o delegado achou por bem forçar o pai biológico a pagar pensão, o que acalmou todos em parte e desagradou-os em completo.

A polêmica tinha sido aparentemente desfeita pelo exame de DNA, e como apareceu na cidade o caso de uma mulher que casou com um cabrito, a mídia esqueceu a Camareira Clara, que voltou ao anonimato. Ela continuou negando publicamente ter tido relações com o o pai biológico de seu filho, mas tanto um quanto outro ficaram esquecidos.

O inquérito policial deu inconclusivo. Contudo, o delegado confidenciou-me ainda pouco desconfiar que a gravidez da Camareira Clara pode ter tido algo a ver com dormir em lençóis sujos. Infelizmente, ele não poderá provar nada, pois está muito ocupado tentando demonstrar que o casamento da mulher com o cabrito é ilegal, não pela diferença de espécies, mas porque o cabrito não é batizado.

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O Príncipe de Liechtenstein

A pizza de tomate e outros vegetais que não consigo identificar chega no meio de uma discussão. Interrompo meu gole de suco abruptamente para dar danke ao garçom. De que outro modo saberia ele da minha gratidão? Entretanto, sua cara não se desamarrou com isso, o que me fez sentir perto de casa. Sempre que sou mal atendido eu o sinto.

Eu e A. conversávamos sobre temas tão diversos quanto a pressão alemã contra o sigilo bancário do principado, os hábitos noturnos dos pombos alpinos e as últimas façanhas perpetradas pelos políticos brasileiros no planalto. A noite estava agradável, apesar da neve lá fora cobrir as ruas fazendo do mundo um lugar mais frio. Mas, se a gente não olha para fora não tem problema.

A pizzaria estava cheia nessa noite. Caminhoneiros, vindos de longe, e bisbilhoteiros, de perto, devoravam os cardápios, mas liam as pizzas vagarosamente, como se lendo Joyce, que, sabemos, é de difícil digestão até para os estômagos alemães, acostumados à lingüiça. Lembro do Nietzsche, tão equilibrado quanto um sifilítico raivoso pode ser, mencionar em Ecce Homo que eles tem pés de porco por causa de sua péssima comida, ao contrário dos italianos, que teriam pés leves. Parte dessa morosidade digestiva pode ser creditada à cerveja suíça, que parecia ser o tema recorrente em todas as mesas, impedindo-os de terminar a comida. A felicidade no ar misturava-se ao pouco de fumaça que havia, deixando a atmosfera palpável, e se me fosse lícito descrever aqui apenas uma impressão dessa noite, seria essa, a da nuvem palpável de felicidade, como se todos naquele lugar aquecido, protegido do frio externo, fossem felizes. E nós éramos. Uma noite qualquer no fürstentum.

A porta foi aberta e um sujeito grande, meia-idade, de óculos e boné surrado entra. Toma seu lugar no balcão e pede um refrigerante. Não conversa com ninguém, e a posição de sua cabeça poderia sugerir que ele está olhando, ora a parede, ora a superfície do balcão, mas é só uma suposição. Ele não olha para nenhum lugar desse mundo, como se seu cérebro estivesse tão entretido nele mesmo que não houvesse necessidade de ver qualquer coisa.

Como a conversa com A. havia chegado a um cul de sac, imagino por que eu tenha sugerido que me mudasse para a casa dela, havia um espaço propício para o início de outro tema, que ela de imediato se propôs a introduzir, logo após ter fingido não ouvir minha sugestão. Ela perguntou se eu vira o homem que entrara. Eu apontei com os olhos para o sujeito no balcão. A. contou-me então sua história.

O sujeito chamava-se Arno e seus predicados eram muitos e bons. Quando jovem, era rapaz bem apessoado. Inteligente e bonito, atraía a atenção das moças da cidade e tinha um futuro promissor. Tinha vários amigos, mas, ao longo do tempo, foram inebriados pela bebida ou outras drogas, de modo que ele já não tinha mais nenhum quando conheceu – repare a minúcia do destino – Isold. Achei impressionante a escolha muito fina do nome por parte do destino, a quem eu não tomava por wagneriano. Segundo me foi relatado em palavras menos piegas que estas, era das mais belas jovens da região. Amavam-se muito, como só se pode amar sendo inocentes, jovens e bonitos. Dobraram seus pais a aceitar o casamento, mesmo ele sendo de família pobre, e ela de uma tradicional linhagem da Renânia. A condição imposta para que o casamento ocorresse era a compra de uma boa casa, ao que Arno trabalhou em turnos dobrados para comprar. Isold comprou o vestido de casamento numa terça-feira. Ao sair da loja com o vestido em mãos, dois assaltantes de banco que fugiam atirando acertaram um tiro em Isold. Ela morreu no dia seguinte. O casamento seria no sábado. Arno manteve os convites, apenas avisou aos convidados que, ao invés de casamento, haveria um funeral. Não foi mais visto por alguns anos, até que um dia retornou a Liechtenstein, gordo, imprestável e cheirando mal. Voltou a morar com sua mãe, agora idosa, e obedece-a como se tivesse 12 anos. Desde então, todas as noites, senta no balcão da pizzaria, pede refrigerante e vai embora. Não conversa com ninguém nem olha para os lados. Uma noite qualquer no principado.

Peço a conta, que já havia sido paga sorrateiramente por A. numa falsa ida ao banheiro. Pegamos nossos casacos e nos preparamos para sair da pizzaria. Lá fora o mundo é frio.

Why I Write, George Orwell

Orwell explicando o porquê dele escrever:

  1. Sheer egoism. Desire to seem clever, to be talked about, to be remembered after death, to get your own back on the grown-ups who snubbed you in childhood, etc., etc. It is humbug to pretend this is not a motive, and a strong one. Writers share this characteristic with scientists, artists, politicians, lawyers, soldiers, successful businessmen—in short, with the whole top crust of humanity. The great mass of human beings are not acutely selfish. After the age of about thirty they almost abandon the sense of being individuals at all—and live chiefly for others, or are simply smothered under drudgery. But there is also the minority of gifted, willful people who are determined to live their own lives to the end, and writers belong in this class. Serious writers, I should say, are on the whole more vain and self-centered than journalists, though less interested in money.
  2. Æsthetic enthusiasm. Perception of beauty in the external world, or, on the other hand, in words and their right arrangement. Pleasure in the impact of one sound on another, in the firmness of good prose or the rhythm of a good story. Desire to share an experience which one feels is valuable and ought not to be missed. The aesthetic motive is very feeble in a lot of writers, but even a pamphleteer or writer of textbooks will have pet words and phrases which appeal to him for non-utilitarian reasons; or he may feel strongly about typography, width of margins, etc. Above the level of a railway guide, no book is quite free from aesthetic considerations.
  3. Historical impulse. Desire to see things as they are, to find out true facts and store them up for the use of posterity.
  4. Political purpose.—Using the word ‘political’ in the widest possible sense. Desire to push the world in a certain direction, to alter other peoples’ idea of the kind of society that they should strive after. Once again, no book is genuinely free from political bias. The opinion that art should have nothing to do with politics is itself a political attitude.

Recomendei o texto ao Sérgio Rodrigues, autor de “Elza, a garota”, que fez um breve post sobre o texto em seu blog.

Erro de português denuncia quadrilha

Se o negócio tá perigoso assim, não quero nem ver a quantidade de gente caindo com a reforma ortográfica. Vai ser o novo bug do ano 2000. Ou como quando as 5 famiglias entraram em guerra. Vale a pena mexer nesse ninho de abelhas que é a língua portuguesa? Essa mesmo, que todo jornalista-papagaio se refere como “língua de Camões”? Veja, eles não percebem que não precisam usar Camões – existem outras pessoas que escrevem em português também. Mas não, eles são insistentes. Isso porque este termo, como outros, faz parte do livro “Jornalismo em 50 Minutos”, adotado de modo federal na mídia brasileira.

Camões aos 24 anos de idadeCamões aos 17 anos

Estes “termos jornalísticos” não são somente insubstituíveis, mas também usados sempre que possível na televisão. Cito os que me deixam mais rabugento e resmungando sozinho:

“O time fez o dever de casa”, pra descrever um time que ganhou jogando no próprio estádio;
“escola da vida”, que descreve o método de aprendizado dos ignorantes;
“essa idéia vai decolar”, concomitante à imagem de um avião decolando (porque a gente não conseguiria imaginar a palavra “decolar” sem um avião);
“segurar a barra”, frase comum na Rede Globo e que não existe fora do projac;

“faz 23 anos que o XV de Piracicaba não ganha do Avai”, na tentativa de criar um tabu a ser batido, sem mencionar que houve apenas 2 jogos entre esses times no período citado;

“a equipe azul está na frente da vermelha!”, apresentando duas equipes formadas por desconhecidos, jogando um jogo inexistente em alguma reportagem-de-encher-linguiça-da-globo;

“…, o que equivale a 300 campos de futebol” – virou praxe a imprensa brasileira usar uma nova unidade de medida de área que se chama “campos de futebol”.

“A natureza agradece”, após uma reportagem pró-natureza, como se ela, apesar de massacrada por nós, ainda tivesse que nos agradecer de alguma forma. Que prepotência nossa, não?

Vamos parar com essa folga

Uma crônica de Stanislaw Ponte Preta que reúne as tão alardeadas características do brasileiro. Tirada desse blog aqui.

“O negócio aconteceu num café. Tinha uma porção de sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo.

De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, motivada pela provocação e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou:

— Isso é comigo?

— Pode ser com você também — respondeu o alemão.

Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-se então um português que era maior ainda do que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos.

O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café. Levantou-se então um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E depois do inglês foi a vez de um francês, depois de um norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar, como os outros:

— Isso é comigo?

O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e… pimba! O alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro.

Como, minha senhora? Qual é o fim da história? Pois a história termina aí, madame. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros”.

(Do livro “O Melhor da Crônica Brasileira – 1″, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 71)