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A revolução não será televisionada

Primeira parte do excelente documentário irlandês que mostra uma versão da história de Hugo Chávez antagônica a que nos é contada diariamente pela imprensa brasileira. Vale a pena para reflexão.

O prefeito Graciliano Ramos

Houve tempo em que o escritor Graciliano Ramos assumiu, por dois mandatos, o cargo de prefeito de Palmeira dos Índios, cidade no interior de Alagoas. Nessa época escreveu ao governador do estado de Alagos algumas prestações de contas da prefeitura local, que contém insights interessantes. O meu favorito é sobre o cemitério local:

“No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação”

Lendo as prestações de contas, é possível ver o estado em que se encontravam as coisas nessa pequena cidade do interior nordestino, e considerando o ano em que foram escritas – 1929 e 1930 -, o leitor contemporâneo talvez concluirá que a administração pública municipal brasileira não evoluiu muito.

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Seguem alguns trechos interessantes:

“Os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas (…) Fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos públicos”.

“Não há vereda no interior aberta pelos matutos , forçados pelos inspetores, que a prefeitura não ponha no arame (telegrama), proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do estado, que não precisa disso; todos acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que iso por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos Caetés”.

Sobre a iluminação pública:

“A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá”.

A Genealogia do Brasil

Voltando na linha do tempo, sempre é possível buscar a gênese de uma nação em um evento histórico de grande importância. Este evento invariavelmente caracteriza-se por um momento de superação, o salto de uma fase menor para uma fase de grandeur. É uma oportunidade para a nação se livrar de resquícios indesejados do passado para entrar numa nova era. Os Estados Unidos nasceram da proclamação da independência e da subsequente sangrenta guerra contra a poderosa Inglaterra; esta surgiu de fato na Revolução Gloriosa de 1666, a primeira revolução burguesa da História. Do outro lado da Mancha, a República Francesa foi fundada na Revolução Francesa, mas já é possível traçar sua concepção desde Carlos Magno. A Confederação Helvética teria surgido na revolução inflamada por William Tell; A Argentina teve San Martin, e, nessa lógica, é possível mencionar mais dezenas de países.

O Brasil é um caso a parte. O Descobrimento do Brasil em 1500 não é sua gênese; passaram-se 30 anos até que alguém deu alguma atenção ao lugar. O verdadeiro evento que levou a criação da nação brasileira é a Fuga da Família Real. A Independência não mudou nada, ao contrário da Fuga da Família Real, que obrigou os portugueses a vir para cá, na marra.  Não fosse a chegada de Dom João em terras tupiniquins, não haveria a Independência mais fácil da História, 14 anos depois, nem as principais estruturas que originaram nosso país. A propósito, quando da sua independência, o Brasil foi o único país americano a tornar-se monarquia, e tanto no surgimento da Independência quanto no da República foi disparado um tiro sequer. Foram ambos eventos de coaptação, de criação de cargos públicos, de manutenção em forma de mudança. Aparentemente, em 1822 já existiam partidários do PMDB.

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foto ilustrativa desnecessária

Enquanto a genealogia das nações é feita de lendas, atos heróicos, tratados diplomáticos, sublevação dos oprimidos, guerras internas, externas, partidárias e religiosas, a do Brasil pode ser resumida num ato, o da fuga – que não é a coisa mais dignificante a se fazer. Lembro de uma professora de História, ainda no colégio, orgulhosamente contando como nós, brasileiros (esqueceu-se ela que Dom João era português) havíamos habilmente conseguido enganar Napoleão ao fugir das tropas francesas. Como se correr apavorado como se não houvesse amanhã, deixando tudo para trás, fosse enganar alguém. Quem não podia pagar a viagem, ficou. Vieram só os cooptados pelo sistema português. Que belo método de seleção natural ao inverso criou Napoleão, inadvertidamente.

A lista de países e reinos que se engajaram militarmente contra le petit corporal apenas deixa essa façanha lusitana ainda mais humilhante: Espanha, Inglaterra, Itália, Sicília, Áustria, Rússia, Prússia, Saxônia, Reino Unido da Holanda, Piemonte e Hanover, para não mencionar a poderosíssima Brunswick, que se eu tivesse encontrado no google, saberia que tem um povo tão feroz que fez Napoleão dormir na pia, ou pelo menos é isso que gosto de pensar. A Suécia abandonou a neutralidade e mandou vir. Até o Vaticano lutou contra a França napoleônica, e isso deve ter sido engraçado.

Foi esse pessoal valente e cheio de vontade de vencer que aportou no Rio de Janeiro para fundar a nação brasileira. Então não sejamos muito exigentes com nossos políticos, pessoal. Não dá para esperar grande coisa.