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O colecionador de relíquias

Na recepção do hotel havia um imenso marreco de algodão, de uns 1,80m de altura, trajado, alegadamente, com roupas típicas alemãs, embora eu nunca as tenha visto na Alemanha. Quando o vi, entendi imediatamente o conceito de kitsch, que até esse preciso instante ainda não havia entranhado adequadamente em meu cérebro. Prendeu-me a atenção por alguns momentos, o marreco de algodão, com seu olhar injetado de só quem tem bolas de vidro no lugar dos olhos pode ter. A concierge perguntou-me, interrompendo minha divagação esteta:

“Pois não senhor”?

Por algum motivo, respondi-lhe:

“Preciso tê-lo”, falei decidido, apontando com o indicador para o marreco.

“Como senhor?”, ela perguntou, não entendendo.

“O marreco. Preciso tê-lo. É um marreco Fauberg. Um colecionador rival comprou um exemplar inferior por 40 mil euros num leilão de antiguidades”.

Ela pensou um pouco e respondeu:

“Desculpe senhor, é do hotel. Não posso vendê-lo”.

Coloquei então minha melhor personificação inglês-vitoriano:

“Nesse caso, exijo falar com o proprietário do hotel. É uma peça de valor artístico-histórico que não pode ser mantida de qualquer forma, num lobby de hotel. Representa a própria conquista da técnica pelo Homem, tamanho é o engenho adotado na construção deste marreco, como, aliás, de todos os outros Faubergs. Suponho que este seja o exemplar encomendado pela imperatriz Maria Theresa, da Áustria, quando de sua subida ao trono. Infelizmente estava perdido desde que fora furtado do palácio real… até hoje!”

Ela pediu um minuto e saiu para consultar alguém ou chamar a polícia. Não esperei para saber. Peguei o marreco e fui.

Há Vagas

1. Do Edital

O Emplastro Cubas vem através deste edital selecionar candidatos para provimento de cargo de office-boy, em vacância desde o falecimento do último, na fila do INSS deste começo de mês, que estava especial.

2. Das vagas

Abre-se uma vaga, destinada a idoso, deficiente visual, gestante ou lactante, tendo esta que vir, necessariamente, com uma criança de colo anexada para fins de aderência à lei de acessibilidade. Para os fins deste edital, ambas serão consideradas uma só, bem como o cego e o respectivo labrador amarelo.

3. Dos Requisitos

O candidato deverá estar em plenas faculdades mentais e físicas; ser alfabetizado em língua portuguesa, nova ortografia desejada, se não for pedir demais; deverá ainda ter o polegar direito, salvo capacitado para assinar o próprio nome, ou, ulteriormente, “X”. O candidato deverá ser apto para exercer todos os atos do exercício da cidadania; ser hábil para prosecução de procuração pública; capacidade de esperar, em pé ou sentado; resistência a assédio moral e surras em geral; capacidade de cicatrização rápida e desconhecimento da legislação trabalhista desejados; veículo próprio; se cego, ter um labrador, necessariamente amarelo, para fins de compleição de estereótipo; paciência e perseverança; ser educado e simpático com interlocutores em geral, pois está representando este glorioso órgão midiático; gostar de desafios; ser profissional dinâmico e comunicativo; saber contar o troco; pós-graduação em mecânica de filas; saber montar uma máquina de senhas em 60 segundos, depois desmontá-la novamente em igual período; fazer os 110m rasos com barreiras em 10 segundos; curso de identificação criminal; biologia molecular avançada, física newtoniana básica; Ibrahimovic – um gênio da bola?; controle de constitucionalidade; compreensão da crítica da razão pura, de Emmanuel Kant e o Tratado Lógico-Filosófico de, bom, o candidato interessado vai saber de quem é; mandarim fluente; se lactante ou gestante, ser mãe solteira, vulnerável e propensa a sofrer assédio sexual intra-empresa e fechar o bico; e isso me lembra, saber guardar segredo; trabalhar em equipe; pró-atividade; e o mais difícil, aguentar uma música do Roberto Carlos por mais de 1 minuto sem ter espasmos epiléticos.

4. Das Atribuições do Cargo

O candidato selecionado será responsável pela parte de autenticações bancárias, envio e busca de malotes no correio e interface com repartições públicas em geral.

5. Dos Provimentos

O empregado receberá o piso da categoria, mais adicional de autenticação ou vale -coxinha, a combinar. Em caso de lactante com criança de colo, ambas receberão somente um provimento, referente à mãe. A criança folgada que procure seus direitos, o mesmo valendo para o labrador amarelo. Bicho mau caráter, onde já se viu se voltar contra o empregador. Cadê a lealdade?

6. Da Prova

A prova de maior número de títulos e roupas mais curtas será arbitrária e ocorrerá às 14:00 horas (horário de Brasília) do dia 30 de Outubro, nas torres do Emplastro Cubas, situada à Rua da Consolacion, La Paz, Bolivia.

O grande Fracasso

As duas únicas características distintivas concernentes ao protagonista desta história, Mohammed Fracasso, eram uma profunda aversão ao trabalho e sua altura excessiva, totalmente desproporcional, que Joyce não tentaria colocar no papel – muito menos eu.

Descendente de italianos, ainda adolescente foi recrutado para as fileiras do Jihad. Seus amigos terroristas o chamavam por seu nome de guerra, Fracasso, já que quando o chamavam pelo primeiro nome quinhentos homens olhavam. Seu pai havia sido homem-bala num circo italiano, e não se sabe por quê tornou-se ativista árabe fervoroso.

Por não ter apego a qualquer coisa desse mundo, o psicotécnico de Fracasso acabou enquadrando-o na função de homem-bomba.

O fato é que Fracasso permanecia no Jihad somente porque odiava trabalhar, e, não tendo nenhuma aptidão, acabou ficando na organização. Era um membro sem convicção, e apenas o era para evitar perguntas indesejáveis sobre estar desempregado por parte de sua família, e assim a coisa funcionava bem para todos.

Frequentemente dormia nas reuniões, nunca participando das dinâmicas de grupo com os psicólogos da Jihad. Era um outsider dentro da organização, mas isso não impedia que mantivesse boas relações com outros membros.

Numa das chatíssimas Reuniões de Quinta-Feira a Noite da Jihad, seu cochilo foi interrompido pelo que lhe parecia ser a voz do líder chamando seu nome. Acordou bruscamente e limpou um pouco de saliva que ameaçava escapar pelo canto direito da boca. Percebeu que não fora pego em flagrante dormindo, e essa constatação o tranquilizou. Agora, totalmente acordado, prestou atenção no líder como se este estivesse ensinando como convencer moças israelenses a dormir com árabes.

Foi preciso que o líder acabase seu pronunciamento para que Fracasso compreendesse tudo: fora convocado para explodir uma sinagoga.

No final da reunião, alguns colegas vieram cumprimentá-lo, desejando-lhe boa sorte no atentado que aconteceria na semana seguinte. Os mais caras-de-pau perguntaram-no com quem ficaria sua esposa quando Fracasso partisse desse mundo. Pensando na esposa, Fracasso percebeu que ela era um grande incentivo para que ele cometesse o atentado, embora ela não soubesse disso – era insuportável, a infeliz.

No caminho de volta para casa, a perspectiva da morte se abateu sobre nosso herói. Seu coração fraquejou. Não odiava ninguém e morreria por uma causa que não acreditava.

Passou o fim de semana pensando nos detalhes do atentado que cometeria, onde, independentemente de sucesso, acabaria morto. Pior, era capaz até que não levasse ninguém junto com ele. Isso desgraçaria o nome da sua família.

Bolou uma estratégia que o livraria do funeral, mas que poderia ter consequências ainda piores que a própria morte.

No dia programado para o atentado, ligou para a Jihad e informou que não poderia cometê-lo, pois estava doente. Tinha até atestado médico para comprovar. Ele sabia das implicações que isso haveria de causar em última instância, e que acabaram tomando lugar nos dias subsequentes.

O desfecho foi previsível: seus colegas ficaram indignados com a falta de fé de Fracasso, que foi excomungado do grupo. A família de Fracasso descobriu sua covardice, e como ele tinha mais medo do pai que da Jihad, acabou tendo que arranjar um emprego burocrático, 5 dias por semana, 8 horas por dia.

Até hoje Fracasso enfrenta com pesar as consequências de ter refugado diante do atentado. Há dias em que jura ter preferido levar adiante o ataque, especialmente naqueles que seu chefe faz chacota da sua altura desengonçada, ou nos que sua esposa pede para que tire os sapatos ao entrar em casa.

A Fantástica História do País B. – parte II

###Então encontraram o caminho, ratazanas do mar?###

*Segunda parte da crônica “A Fantástica História do País B.”*


O pirata contava meu dinheiro enquanto cofiava o bigode. Continuou, dramático:

“Com o passar dos anos, o povo de B. desenvolveu leis e moral novas, baseadas nas profecias de um andarilho que não conseguira sair a tempo do país. Enquanto o andarilho achava que era Napoleão estava tudo bem, mas depois ele achou que era Metternich, e acabou por se matar a socos. Os habitantes de B. acharam que era um simbolismo para a luta interna do Homem e lhe construíram uma estátua.”

“Seguindo a profecia do andarilho, os bandidos que estavavam na cadeia foram liberados para ocupar cargos eletivos e comissionados. Ao maior deles, deram o cargo de corregedor. As pessoas mais vazias e que não tinham o que acrescentar foram colocadas na rádio, que tocava a mesma música em repeat o dia inteiro. Com a ida dos idiotas para a TV, esta passava futebol a maior parte do tempo, imagine? Não que eu seja perna de pau, mas tenha paciência!”, ria e tossia o pirata. Ele gesticulava muito enquanto falava, o que não seria perigoso se não estivesse segurando sua espada, de modo que de quando em quando eu tinha que me abaixar.

“Os inteligentes, tachados de loucos, foram abrigados em hospícios; Os com o pior senso estético viraram artistas de toda sorte; Aos piromaníacos foram delegados os bombeiros, enquanto aos cleptomaníacos, a segurança pública; foi criado o Esquadrão da Moda, espécie de polícia paralela que prendia os que se vestissem em desacordo com o esperado. Os mendazes foram pro jornalismo; Os ladrões de terra para imobiliárias e planejamento urbano. Os injustos tornaram-se legisladores. Os alcóolatras e outros com capacidade de discernimento alterada foram para cargos de direção. Até os padres inverteram suas atribuições e foram fazer o bem!

O pirata foi interrompido pelo seu papagaio, que, neurótico, começou a xingar os padres. Prosseguiu, depois de pedir desculpas pelo pássaro, que, explicou, não gostava de padres, mas não dizia por quê:

“Os indicadores sociais começaram a se deteriorar, e chegou o dia em que até as canetas que ficam nos balcões das lojas tiveram que ser atadas com cordinhas para que ninguém as roubasse. Imagine isso, dizia o pirata indignado, você ter que fazer a segurança de suas próprias canetas! Imagine como os coitados estavam desesperados, santo cão!”, praguejou.

“Um dia, uma criança jogou no rio do país B. uma mensagem numa garrafa, que, não sei como, foi encontrada aqui, no mundo exterior. Se lembraram do país e foram em socorro de seus habitantes, e lá chegando, encontraram-os miseráveis.

Parece que estavam matando pra roubar relógio. Brigavam até por time de futebol. Havia partes das cidades em que a própria polícia não podia entrar, por causa de gangues. A maioria estava morando em barracos, com as crianças brincando em cima do esgoto. Quem tinha carro podia tudo, até passar por cima dos outros. Tinha bicho de estimação que tinha mais coisa que gente. Os comerciantes perguntavam aos clientes se estes iam querer levar a nota fiscal.

Apesar da injustiça e da opressão, eram sempre os mesmos no comando, um navio sem motim. Esses do comando dominavam estados inteiros, e haviam estabelecido uma espécie de monarquia, pois seus poderes políticos eram repassados aos filhos. Frequentemente encontravam-se pela cidade o sobrenome da mesma família em todos prédios públicos. No final chegaram ao fundo do poço: como não conheciam outra forma de viver, achavam tudo natural. Diziam eles que se eles viviam assim, era essa a melhor forma de viver. O curioso é que, depois de reencontrar o resto do mundo, não sei como os habitantes de B. sentiram muita pena da situação de Timor Leste!”

Agora o pirata, sensibilizado, tinha um olhar distante no rosto. Avistei uma lágrima fugindo por baixo do tapa olho. O imediato de seu navio veio chamá-lo: parece que havia saído de Cartagena um galeão espanhol com ouro. O pirata levantou-se e despediu-se rapidamente. Deixou a conta para mim sem eu ter pedido. Falou que se eu contasse essa história para alguém, faria-me andar na prancha. Como seu só contei para você, estou tranquilo. Se você mantiver segredo também, ficarei bem, afinal, esse tipo de coisa sempre funciona. Pelo menos ficarei melhor que o pobre povo de B.

A Fantástica História do País B. – parte I

A história que escreverei agora me foi contada por um pirata fedendo a rum em uma ilha qualquer das Antilhas, acho que São Tomé, num bar repleto de marinheiros dos sete mares. Tentando recordar agora, talvez o fedor de rum fosse meu, mas tampouco lembro-me disso, o que reforça minhas suspeitas nesse sentido. O fato é que o trigueiro pirata sabia das coisas, e depois de ter me deixado liso no carteado com um baralho marcado, me contou a tal história sob a condição de lhe pagar 2 dobrões, ao que concordei de bom grado, afinal, sou um velho lobo do mar – farejo um golpe de longe, e sabia que esse não era o caso. Mas já alerto ao leitor: é uma história daquelas tão fantásticas que só podem ser verdadeiras.

O país B. sempre foi muito isolado…“, começou o pirata, e já nas primeiras palavras percebi um misto de intensidade e cebola. “… Distante até de seus vizinhos de fronteira, sempre foi contramão para quem quisesse ir a qualquer lugar. Não produzia grande coisa, nem exportava nada, de modo que era pouco lembrado pelas pessoas do continente e esquecido por Deus…”, e olhou para cima, procurando-o. Nesse momento lembro de ter pensado “puxa vida, que marujo dramático esse”, mas, vivendo como vivi a vida toda no mar, sei que são tipos que gostam de fazer jus ao estereótipo que carregam.

Foi na Grande Tempestade, no ano do Senhor de 1985, que um deslizamento de terra interrompeu a estrada B.-267, única via de saída do país B. para seus vizinhos. “Aliás“, acrescenteu o pirata tossindo após um trago, “Mesmo quando estava aberta, a B.-267 não servia como via de entrada, já que ninguém tinha nada para fazer lá”, e gargalhou alto, atraindo a atenção de todos no bar, mostrando seus dentes podres. Deduzi que era inglês.

“O povo de B. se viu isolado do mundo. Devido ao estado anterior das coisas, foi uma transição suave. Nos primeiros meses, aguardaram ansiosos por socorro externo. A medida que perceberam que não seriam salvos, retomaram lentamente o ritmo de suas vidas, esperando que esse esquecimento que só podia ser por engano se desfizesse logo.”

“Simultaneamente, no mundo exterior, os geógrafos, ao atualizarem seus mapas enquanto assistiam televisão, esqueceram de colocar esse distante país no novo mapa mundi, o que sepultou de vez a sorte dos habitantes de B. O mundo externo esqueceu-se de B. com a facilidade que um pirata ébrio em terra nova esquece a esposa na terra natal!”, contou batendo a mão na mesa, rindo como se não houvesse amanhã.

Nesse momento, suspeito que o pirata percebeu meu interesse pela história, pois demandou-me mais 2 dobrões para continuá-la. Como estava curioso, paguei de pronto, e, com meus últimos tostões mandei o grumete trazer mais uma garrafa de rum. Sendo o velho lobo do mar que sou, sei que nada azeita um pirata como rum da Jamaica. O pirata aproveitou a pausa para tirar com o palito algo que estava preso em seu dente de ouro. Era um peixe.

***

###Como o Emplastro tem que pagar suas despesas, e eu preciso reaver o dinheiro perdido junto ao pirata, só daremos o final da história com o pagamento de uma doação. Se quiser saber o que aconteceu comigo, com o bravo pirata ou com o povo de B., lhes darei o mapa do tesouro: o final da história está a 5 dias de navegação a sotavento, nesta mesma ilha.###

O Matemático

Francisco era uma espécie de gênio matemático. Filho de um engenheiro e uma contadora, no primeiro aniversário ganhou um cubo de Rubik, e no segundo, um ábaco. No quinto já dominava a calculadora científica de seu pai, e para passar o tempo resolvia problemas de xadrez, numa idade em que as crianças mal conseguem elaborar frases simples. Seus pais logo perceberam a prodigiosa aptidão do filho pela matemática, mas foi quando ele enviou uma carta ao Dr. Stevens, do MIT, fazendo algumas retificações em sua tese de doutorado, que eles desconfiaram que havia algo muito errado com a criança, digo, algo errado apenas, pois eles não gostavam de usar a palavra “muito” – é uma incerteza matemática.

Fez da previsibilidade sua vida, não precisando nunca entrar na margem de erro. Escolheu sua universidade alguns anos depois, quando já era um senhor de 12 anos. Preferiu a computação, uma escolha meio sem graça, já que os computadores trabalham só com zeros e uns. Uma mente dessas para ordenar zeros e uns era um crime, disse a mãe reprovadora, acrescentando que seria como colocar Shakespeare para aprender português. O menino não entendeu, pois desse autor ele só conhecia O Rei Leão. Sua área era outra. Respondeu com uma pergunta: não era Shakespeare inglês?, ao que a mãe retrucou, furiosa, que podia contar nos dedos quantos desses jovens metidos com computadores eram felizes.

Chegou a gerente do sistema operacional da Bolsa de Valores; o salário era bom, mas ele nutria um medo descomunal dos números do pregão: eram imprevisíveis. Todo dia investidores ganhavam e perdiam milhões na bolsa, o que ele considerava um investimento seguro como as corridas de cavalos.

Manteve sua rotina e fazia tudo nos mesmos horários, como Kant em Konigsberg. Sua vida de repente parecia uma dízima periódica, e, entediado, começou a pensar em ganhar dinheiro, só pela diversão, mas não como esses investidores, que lhe pareciam jogadores viciados. Um dia, enquanto assistia a bela dança dos números no painel eletrônico, lembrou-se de um truque matemático que descobrira quando pequeno, que era assim: (1) dividido por (3) é (0,333); no entanto, ao fazer a prova real, multiplicando (3) por (0,333), o resultado é (0,999), ao invés de (1), como se poderia supor. O truque fazia desaparecer (0,001) da quantia original. Ah, como era cheio de mistérios o belo sistema decimal!… Foi dormir pensando nisso. No dia seguinte, estava tudo planejado.

Inseriu no código-fonte do software da Bolsa de Valores uma linha maliciosa que operava da seguinte forma: todas as transações financeiras com quantias terminadas em (,01) passavam pela linha, onde eram divididas por 3 e em seguida, multiplicadas por este mesmo número. Essa equação, seguindo a lógica do velho truque de infância, sumia com uma pequena parte dos centavos, e a colocava automaticamente em contas secretas em Guernsey. Em termos absolutos, a diferença não era notada, pois eram partes de centavos, mas, no decorrer de milhares de transações mensais, somavam muito dinheiro. Isso não foi percebido por mais de um ano, até que, desconfiados de seu enriquecimento repentino, a polícia investigou-o. A declaração de Imposto de Renda e seu patrimônio não batiam na prova dos nove. Ele argumentou que tinha esquecido de levar alguns rendimentos em conta, e que a polícia estava vendo números imaginários. Esta sabia da grande reputação de Francisco, e percebeu que este não poderia ser o caso.

Descoberta a linha maliciosa, foi em cana por subtrair o bolso alheio. Sentiu-se uma fração do homem que era quando o juiz lhe disse que estava com os dias contados.

A Camareira Clara

A primeira coisa que a Camareira Clara viu ao acordar foi a expressão de terror estampada na cara da recepcionista do laboratório.

- “O que aconteceu?”, perguntou a Camareira Clara, ainda tonta.

- “A senhora desmaiou. Está tudo bem? Está tudo bem?”, repetiu a recepcionista assustada, pois era daquelas que pensam que uma pergunta repetida tem a incisão de duas.

A Camareira Clara aquiesceu devagar, como quem consulta a si mesmo para saber se está tudo bem. Nada tendo surgido em sua cabeça, como ocorria com alguma frequência, deduziu que estava tudo bem, e assim o fez saber à recepcionista. Esta parecia mais instrutora de para-quedismo que recepcionista , porque gostava de fazer as coisas com muita segurança, pois perguntou pela terceira vez “está tudo bem”?

Se desta vez a Camareira Clara não escutou ou apenas ignorou não sabemos. Pode ser que ainda estivesse se recuperando do desmaio, e ela notoriamente demorava a engrenar sua cabeça nessas ocasiões. Havia até dias que ela ia dormir sem ter acordado totalmente. Andava sempre meio sonambula. Não era uma pessoa matutina, certamente; um psicólogo disse que ela tampouco era pessoa noctívaga; um hóspede do hotel, quando da subtração de sua carteira durante o turno da Camareira Clara disse que ela não era pessoa alguma. Não há tempo para existencialismo aqui. Basta-nos saber que não era a mais brilhante das camareiras – embora fosse a mais sonolenta. Talvez ela simplesmente não se interessasse o bastante pela parte da vida que passamos acordados. Curioso notar que os outros funcionários do hotel, quando a pegavam dormindo em horário de serviço, o atribuíam à narcolepsia. Coincidentemente, ela era sempre encontrada narcoléptica na cama dos quartos que deveria arrumar, e nunca no banheiro ou nos corredores, como poderia se supor, mas a doença dos outros funcionários era outra: a miopia.

A recepcionista insistiu em chamar um taxi para levá-la para casa. Telefonou para a rádio-taxi e juntou os exames da Camareira Clara que tinham caído no chão. Ligou mais uma vez para confirmar: o taxi realmente vinha. A Camareira Clara entrou no taxi sob a vigilância atenta da preocupada recepcionista, que analisava a conformidade do procedimento.

No caminho para casa, a Camareira Clara pensava consigo, enquanto olhava o resultado dos exames: “Grávida…”. Não era possível. Como isso poderia ter acontecido? Valdecir estava morto já fazia 5 anos, e desde então ela não havia estado com nenhum homem. Lembrou de Valdecir com carinho e suspirou. Aquele sim era homem. Como então poderia a Camareira Clara estar grávida?

***

A Camareira Clara procurou a Polícia, que abriu inquérito para apurar como teria acontecido a concepção do bebê. O caso tornou-se notório da noite para o dia. A Camareira Clara apareceu em programa de TV e deu entrevista para a rádio. A Igreja atribuiu a paternidade ao Espírito Santo, e os ateus, ao padre. Foi na Oprah discutir sobre os misteriosos caminhos da vida com ares de conhecimento de causa.

***

O exame de DNA ficou pronto semanas depois, e revelou o nome do pai biológico. O cético delegado, não acreditando em milagres, cruzou as informações contidas no livro de hóspedes do Hotel e o resultado do DNA e encontrou na intersecção o nome do pai biológico. Este jurou de pés juntos sequer conhecer a Camareira Clara, embora tenha admitido estar no Hotel com outra mulher na data da concepção.

Várias pessoas ficaram revoltadas com a suposta mentira da Camareira Clara, outras com o fato do pai não ter sido Deus – embora algumas tenham mantido firmemente essa convicção. O Vaticano aguardava esclarecimentos para poder canonizar a Camareira Clara. Para acalmar os ânimos, o delegado achou por bem forçar o pai biológico a pagar pensão, o que acalmou todos em parte e desagradou-os em completo.

A polêmica tinha sido aparentemente desfeita pelo exame de DNA, e como apareceu na cidade o caso de uma mulher que casou com um cabrito, a mídia esqueceu a Camareira Clara, que voltou ao anonimato. Ela continuou negando publicamente ter tido relações com o o pai biológico de seu filho, mas tanto um quanto outro ficaram esquecidos.

O inquérito policial deu inconclusivo. Contudo, o delegado confidenciou-me ainda pouco desconfiar que a gravidez da Camareira Clara pode ter tido algo a ver com dormir em lençóis sujos. Infelizmente, ele não poderá provar nada, pois está muito ocupado tentando demonstrar que o casamento da mulher com o cabrito é ilegal, não pela diferença de espécies, mas porque o cabrito não é batizado.

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