###Então encontraram o caminho, ratazanas do mar?###
*Segunda parte da crônica “A Fantástica História do País B.”*
O pirata contava meu dinheiro enquanto cofiava o bigode. Continuou, dramático:
“Com o passar dos anos, o povo de B. desenvolveu leis e moral novas, baseadas nas profecias de um andarilho que não conseguira sair a tempo do país. Enquanto o andarilho achava que era Napoleão estava tudo bem, mas depois ele achou que era Metternich, e acabou por se matar a socos. Os habitantes de B. acharam que era um simbolismo para a luta interna do Homem e lhe construíram uma estátua.”
“Seguindo a profecia do andarilho, os bandidos que estavavam na cadeia foram liberados para ocupar cargos eletivos e comissionados. Ao maior deles, deram o cargo de corregedor. As pessoas mais vazias e que não tinham o que acrescentar foram colocadas na rádio, que tocava a mesma música em repeat o dia inteiro. Com a ida dos idiotas para a TV, esta passava futebol a maior parte do tempo, imagine? Não que eu seja perna de pau, mas tenha paciência!”, ria e tossia o pirata. Ele gesticulava muito enquanto falava, o que não seria perigoso se não estivesse segurando sua espada, de modo que de quando em quando eu tinha que me abaixar.
“Os inteligentes, tachados de loucos, foram abrigados em hospícios; Os com o pior senso estético viraram artistas de toda sorte; Aos piromaníacos foram delegados os bombeiros, enquanto aos cleptomaníacos, a segurança pública; foi criado o Esquadrão da Moda, espécie de polícia paralela que prendia os que se vestissem em desacordo com o esperado. Os mendazes foram pro jornalismo; Os ladrões de terra para imobiliárias e planejamento urbano. Os injustos tornaram-se legisladores. Os alcóolatras e outros com capacidade de discernimento alterada foram para cargos de direção. Até os padres inverteram suas atribuições e foram fazer o bem!
O pirata foi interrompido pelo seu papagaio, que, neurótico, começou a xingar os padres. Prosseguiu, depois de pedir desculpas pelo pássaro, que, explicou, não gostava de padres, mas não dizia por quê:
“Os indicadores sociais começaram a se deteriorar, e chegou o dia em que até as canetas que ficam nos balcões das lojas tiveram que ser atadas com cordinhas para que ninguém as roubasse. Imagine isso, dizia o pirata indignado, você ter que fazer a segurança de suas próprias canetas! Imagine como os coitados estavam desesperados, santo cão!”, praguejou.
“Um dia, uma criança jogou no rio do país B. uma mensagem numa garrafa, que, não sei como, foi encontrada aqui, no mundo exterior. Se lembraram do país e foram em socorro de seus habitantes, e lá chegando, encontraram-os miseráveis.
Parece que estavam matando pra roubar relógio. Brigavam até por time de futebol. Havia partes das cidades em que a própria polícia não podia entrar, por causa de gangues. A maioria estava morando em barracos, com as crianças brincando em cima do esgoto. Quem tinha carro podia tudo, até passar por cima dos outros. Tinha bicho de estimação que tinha mais coisa que gente. Os comerciantes perguntavam aos clientes se estes iam querer levar a nota fiscal.
Apesar da injustiça e da opressão, eram sempre os mesmos no comando, um navio sem motim. Esses do comando dominavam estados inteiros, e haviam estabelecido uma espécie de monarquia, pois seus poderes políticos eram repassados aos filhos. Frequentemente encontravam-se pela cidade o sobrenome da mesma família em todos prédios públicos. No final chegaram ao fundo do poço: como não conheciam outra forma de viver, achavam tudo natural. Diziam eles que se eles viviam assim, era essa a melhor forma de viver. O curioso é que, depois de reencontrar o resto do mundo, não sei como os habitantes de B. sentiram muita pena da situação de Timor Leste!”
Agora o pirata, sensibilizado, tinha um olhar distante no rosto. Avistei uma lágrima fugindo por baixo do tapa olho. O imediato de seu navio veio chamá-lo: parece que havia saído de Cartagena um galeão espanhol com ouro. O pirata levantou-se e despediu-se rapidamente. Deixou a conta para mim sem eu ter pedido. Falou que se eu contasse essa história para alguém, faria-me andar na prancha. Como seu só contei para você, estou tranquilo. Se você mantiver segredo também, ficarei bem, afinal, esse tipo de coisa sempre funciona. Pelo menos ficarei melhor que o pobre povo de B.