Em 2008, houve uma tentativa – infelizmente fracassada – de livrar o Congresso Nacional das gravatas. Foi apresentado projeto de lei desobrigando o uso da gravata e paletó pelos parlamentares, como medida para economia de energia dos aparelhos de ar-condicionado. O projeto foi vetado rapidamente pela mesa diretora do Senado.
A primeira vista, podemos pensar que o veto do projeto1 se deu por questões puramente de elegância e formalidade. Mas há uma razão maior, que remonta aos tempos de Jesus Cristo. O tema é delicado e, por isso, constantemente abafado pela mídia. O que poucos tem coragem de revelar é o domínio exercido pela gravata sobre os homens.
O Emplastro aceitou o desafio.
Antes mesmo do surgimento da gravata, já havia um evangelho, sonegado tanto por cristãos como por judeus, e retirado da Bíblia durante o Concílio de Nicéia, que pregava o repúdio de Jesus ao acessório. Martin Scorcese retratou a história narrada nesse evangelho em seu polêmico filme “A última tentação de Henry Sobel”.
Por ser a única rede televisiva que não possui qualquer ligação com religiões, só a Record teve imparcialidade suficiente para apresentar o filme2 e provar, mais uma vez, que a Universal é a verdadeira representante do Senhor.
Sobre seu efetivo surgimento, conta-se que a gravata apareceu no século XVII, durante a guerra dos trinta anos, quando os mercenários croatas a serviço da França utilizaram uma tira no pescoço para diferenciar soldados e superiores. Os parisienses – sempre eles – acharam o adorno militar coisa finíssima e lançaram a moda.
Observando o efeito da gravata nas pessoas, mais especificamente em Luís XIV (ele mesmo, o radiante), Rousseau, com toda sua perspicácia, cunhou sua célebre frase: “L’Homme nait bon. C’est la société qui le transforme” (O homem nasce bom. É a gravata que o transforma).
E nem precisava ser um Rousseau para perceber que algo criado por mercenários e popularizado por parisienses não daria em boa coisa.
No entanto, patrocinado pelas elites engravatadas, Hobbes conduziu uma das campanhas publicitárias de maior sucesso de todos os tempos, glorificando a gravata e convencendo o mundo de que tudo era culpa do próprio homem.
Nas propagandas da campanha, foram imortalizados dois dos maiores slogans da filosofia política mundial: “Homo homini lupus” (O homem é a gravata do homem) e “Bellum omnium contra omnes” (É a guerra de todos contra a gravata). A campanha fez com que a peça do vestuário passasse de terrível vilã a vítima das atrocidades da humanidade, deixando de ser perseguida para ser protegida.
Durante um longo período, os críticos da gravata foram severamente reprimidos. A situação piorou quando a Igreja finalmente aceitou a teoria heliocêntrica e pensou ter dizimado todas as bruxas, pois eles passaram a ser os principais alvos da Santa Inquisição, para sorte de Galileu e de Minerva McGonagall.
Só no começo do século XX é que o movimento de conscientização contra a gravata voltou a tomar força. Um dos principais nomes da revitalização do movimento foi Mahatma Gandhi, que, ao libertar-se do pano no pescoço (ele era advogado), lutou até a morte pela causa. No entanto, a mídia mundial, distorcendo seus ensinamentos, fez com que tudo parecesse uma mera luta contra a colonização.
Aqui no Brasil também houve manifestações. Os efeitos malignos da gravata nas repartições públicas foram alvo de denúncias desde 1943, quando o poeta e então funcionário público João Cabral de Melo Neto, no manifesto “Difícil ser Funcionário”, em nome de todos os funcionários públicos escreveu num tom de protesto: “Não me sinto correto/De gravata de cor”3.
Mesmo vítima de represálias, ele continuou sua luta por meio de mensagens espalhadas por sua obra. O “ovo de galinha”4, a que se refere no poema de mesmo nome, é uma clara metáfora para a peça do vestuário. Ainda mais direto é seu poema “cão sem plumas”5, comovente história de um homem que, por não usar a infame tira de pano, era tratado como animal pela sociedade. A crítica literária, flagrantemente corrompida, reduziu o texto a uma simples crítica social da pobreza às margens do Rio Capibaribe.
Em 1979, para combater a gravata, entra em cena Hélio Beltrão, pai da jornalista Maria Beltrão, que cobriu as férias dos apresentadores titulares do Bom Dia Brasil, em 2003, e, desde 2006, apresenta o Oscar junto do José Wilker (A Wikipédia, fundada por um homem de gravata borboleta6, desviou, em claro boicote, a atenção para sua filha).
Hélio Beltrão, com um audacioso plano para salvar o país das gravatas, ludibria o então presidente João Figueiredo, convencendo-o a instituir o Ministério da Desburocratização. Como Hélio Beltrão tinha votado a favor do AI-57, o general, inocentemente, acreditando que ele só queria colocar em prática outras idéias sem futuro, como os Juizados de Pequenas Causas e Estatuto da Microempresa, autorizou a criação da pasta.
E foi assim que, em 1979, foi criado no Brasil o Ministério da Desburocratização. O nome seria autoexplicativo caso estivéssemos em outro país.
Em uma de suas primeiras medidas, o Ministro da Desburocratização Hélio Beltrão aboliu a obrigatoriedade do uso da gravata nas repartições públicas, como relata reportagem do jornal “A Tarde”, de 19/10/19798.
O que a primeira vista parecia uma medida sem muita relevância, era claramente o ato de um homem obstinado a acabar com um dos maiores males que já assolaram a humanidade. E para os que acham que a medida só levou em consideração o conforto do vestuário, a seguinte frase do pai da apresentadora reserva do Bom Dia Brasil em 2003 prova o contrário:
“O brasileiro é simples e confiante. A administração pública é que herdou do passado e entronizou em seus regulamentos a centralização, a desconfiança e a complicação. A presunção da desonestidade, além de absurda e injusta, atrasa e encarece a atividade privada e governamental”.
Acompanhemos o brilhante raciocínio do então Ministro: se a administração pública é formada por brasileiros (simples e confiantes), por que ela tem como características a desconfiança e a complicação? A resposta é óbvia, a culpa é da gravata! Símbolo da complicação (de vesti-la) e da desconfiança (é uma forca disfarçada).
Ao se dar conta das reais intenções de Hélio Beltrão, o Governo Militar entrou em pânico, vendo a ditadura (dos militares e da gravata) próxima do fim.
Com os estragos causados, os militares, pressionados e sem poder político para reverter a situação, foram a obrigados a iniciar a transição das gravatas para um governo civil.
O comando do Ministério da Desburocratização, por exemplo, foi entregue a Paulo Lustosa, deputado federal pelo ARENA e pelo partido sucessor – o PDS. Este partido era notório por ser integrado por grandes antiburocratas, como José Sarney, Paulo Maluf, ACM, Fernando Collor e Jorge Bornhausen.
Com o fim do PDS (a chamada diáspora partidária), que espalhou os citados políticos por diversas legendas, finalmente, o país encontrava o modelo ideal de desburocratização da Administração Pública: a descentralização da direita. Com o sucesso da transição para um governo civil devidamente engravatado, o Ministério da Desburocratização foi extinto em 1986.