“A eugenia — uma lei não escrita — era o dogma mais importante para os espartanos. Consistia em sacrificar toda e qualquer criança que nascesse doente ou com deficiências, fossem físicas ou mentais. Assim, Esparta ficou famosa, na antigüidade clássica, por ter um povo hígido e forte, notável nas batalhas de conquista que empreendeu contra seus vizinhos, aquém ou além Peloponeso. Por outro caminho, não violento, os povos do século 21 poderão construir uma sociedade sem pessoas sofredoras de males genéticos, principalmente os observados durante a vida intra-uterina. (…) As pessoas poderão se valer da ciência, para evitar que seus filhos nasçam feios, deformados, deficientes ou idiotas. Ou até mesmo — e essa vai ser a grande questão do século — escolher para que as crianças nasçam clones de algum gênio ou adônis. Nesse mundo de notícias tão ruins, esta é a mais alvissareira de todas: a eugenia, doravante, vai ficar por conta dos prodígios da ciência, não da barbárie das adagas.”
(Luiz Henrique da Silveira, governador de SC, O DNA Espartano, A Notícia, 04/09/2005).
O governador Luiz Foca da Silveira, em visita a Santa Catarina, num arroubo machadiano, achou por bem escrever sobre eugenia, prática comumente adotada por espartanos, nazistas e outros tipos de políticos, nem tão bonitos ou eficientes. Não contente em escrever asneiras inutilizando uma folha de papel que poderia ter uma finalidade real, enviou a carta para o jornal A Notícia, na tentativa, felizmente bem sucedida, de tornar público seu considerável handicap. Após imprimir a bobagem toda em milhares de cópias do citado jornal, as árvores lhe enviaram um email (elas não usam papel, acham desarbóreo), repudiando publicamente o gesto do Sr. Foca.
O que me consola é que o Foca não poderia ter escrito tal carta. Como ele arrumaria tempo para fazê-lo, entre uma embaixadinha de foçinho e uma salva de aplausos de suas barbatanas, enquanto cospe frases abafadas pelo bigode como “se chover será o caos final clap clap clap”? A vida de uma foca é extremamente atribulada, entre migrações sazonais e viagens, algumas pagas por empresários, outras por nós, para aprender línguas estrangeiras e fazer embaixadinhas mundo afora, e nesse meio tempo ainda ter que governar um Estado. Brincadeiras à parte, é impossível que a foca em questão escrevesse uma carta bem articulada sem ajuda de um adestrador. Por isso resta a esperança de que as idéias trazidas ali não sejam da Grande Foca, mas sim de alguma foquinha menor, uma consiglièri, encarregada de tarefas secundárias, como escrever cartinhas e intimidar adversários, e que a Grande Foca apenas abraçou a idéia por falta de subsídios mentais que lhe pudessem dizer ao certo que coisa é essa de eugenia.
A propósito, reparem como o texto da carta fez um detour só para que o redator anônimo pudesse usar a palavra “alvissareira”, como se ele tivesse aprendido a palavra naquele dia, e como um ginasiano, estivesse ansioso por usá-la. Esse é o único indício que levaria a crer que o autor da carta é a foca que ocupa o cargo de governador, pois ele está acostumado a entortar textos (cartas, constituições, código penal, etc.) de modo que eles funcionem em seu favor.
Machado de Assis, que por problemas temporais não teve a sorte de compartilhar o mundo com Luiz Foca da Silveira, também falou em sua obra sobre a eugenia, em uma personagem, Eugênia. Machado, profundo conhecedor do comportamento humano, ironicamente deu o nome “Eugênia” a uma personagem coxa. Ele, em 1880 já percebia que a eugenia servia somente para embasar teorias racistas e preconceitos de toda sorte, o que o Sr. Foca, 130 anos depois, ainda não compreendeu. Se a eugenia de LHS já estivesse em curso quando do nascimento de Machado, que era feio, mulato e epilético, jamais teria nascido. O mundo seria um pouco mais triste se tipos como Foca matassem tipos como Machado. Felizmente hoje Machado de Assis retorna para assombrar uma espécie marítma, mas que gosta mesmo é de lama, e se vingar de seu potencial assassinato no século XIX.
Engraçado como todo eugenista pensa reunir nele mesmo todas as qualidades boas do Homem, ao mesmo tempo que se considera imprescindível à humanidade. O eugenista se considera um progressista e um portador do conhecimento científico. No fundo, talvez em um caso ao menos, a a eugenia poderia ser uma coisa boa. Poderia nos ter poupado de um feio, deformado e idiota.